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Sobre Uma Negligência Médica, A Perda De Um Filho, E A Decisão Da Mãe De Cursar Enfermagem Para Se Vingar. Como O Processo De Avaliação Escolar A Salvou.

Sobre uma negligência médica, a perda de um filho, e a decisão da mãe de cursar enfermagem para se vingar. Como o processo de avaliação escolar a salvou.

Adriana (nome fictício), era uma mãe comum e desconhecida, e teria seguido sua rotina de dedicação ao seu filho, não fosse um fatídico atendimento médico prestado em uma emergência hospitalar, que tirou a vida de seu filho.

Um menino de apenas 5 anos.

Quando fomos convidados pela AETEPE (Associação das Escolas Técnicas de Enfermagem do Estado de Pernambuco), atualmente presidida pela Sra. Maria do Carmo Soares de Lima, não imáginávamos que sairíamos de lá sensibilizados com uma história como a de Adriana, que tinha tudo para terminar com uma segunda tragédia (a primeira já havia acontecido – a negligência médica). Este encontro foi a “IX OFICINA SOBRE PRÁTICA DOCENTE NO ENSINO TÉCNICO EM ENFERMAGEM”,  e reuniu Professores e Diretores de diversas escolas técnicas de enfermagem do estado. Durante o dia de troca intensa, este relato em especial nos chamou a atenção, por isso resolvi compartilhá-lo aqui com você que visita nosso blog.

 

Após se despedir pela última vez do filho, Adriana percebeu uma espécie de chamado para não deixar a morte do filho passar em vão, e tomou a decisão de tornar-se uma profissional da área de Enfermagem, para vingar a morte do filho, em razão da negligência médica.

Ela certamente não se deu conta naquele momento, mas seu filho havia entrado para a estatística, segundo um levantamento que aponta que a cada três minutos, dois brasileiros perdem a vida em um hospital, por um erro que poderia ser evitado.  A Revista Veja publicou em outubro de 2016 a matéria Erro médico mata mais que cancer no Brasil”, e nela divulgou uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em parceria com o Instituto de Estudos e Saúde Suplementar (IESS), que aponta que essas mortes seriam a primeira ou segunda causa de mortes no país, chegando a superar as mortes por questões cardiovasculares ou mesmo câncer.

Esta história foi um dos panos de fundo da oficina que realizamos em 29 de Julho de 2017 no Centro de Convenções de Pernambuco, com o tema: “O que, Como e Por que Avaliar”? Este encontro conduzido por mim (Semaías Rosa) e pela Psicopedagoga Swnahanamy Santos, teve como atores principais os Professores e Diretores de Escolas Técnicas de Enfermagem que participaram do evento. Como ponto de partida das discussões, os atores principais compartilharam sobre o entendimento de cada um a respeito do conceito de avaliação aplicada às seguintes situações:

  • Avaliação no contexto escolar
  • Avaliação na seleção do profissional de enfermagem
  • Avaliação de desempenho (no ambiente corporativo/hospitalar)
  • e a Autoavaliação

Foi neste contexto dinâmico, descontraído e criativo do workshop, que ouvimos sobre a estudante (hoje já formada), conhecida entre os professores e os colegas de sala (naquele período) pelo tratamento áspero que ela dispensava a todos, Adriana mantinha a fama de intratável e áspera no contato com os demais, era conhecida da comunidade escolar por afastar as pessoas do seu convívio.

O que em geral se desconhecia a respeito dela, era a dor que carregava, e o desejo de vingança que estavam por trás daquela máscara agressiva adotada por Adriana, como uma forma que ela encontrou (consciente ou inconscientemente) para lidar com a dor e a perda do seu filho.

Todo esse lado negro, negatividade e falta de interesse em se aproximar das pessoas, foi a gota d’água na paciência de uma das professoras, que reconheceu estar vencida pelas circunstâncias, em suas tentativas de resgatar e trazer Adriana mais para perto, e contribuir para a melhoria do seu desempenho no processo de avaliação da instituição – essa era a principal questão, pois até então se descohecia as reais motivações da Adriana.

Dadas as possibilidades esgotadas, a Professora tomou a decisão de reprová-la.

Em sua perspectiva e avaliação, a professora não via mais alternativas em como validar a aprovação de uma aluna que, se formada, iria atuar na assistência à saúde e recuperação de pessoas, mas que não estava apresentando as habilidades necessárias para construir relações saudáveis no ambiente acadêmico, e especialmente não estava obtendo um bom resultado no processo de aprendizagem como um todo.

 

Pensando o papel do Professor através dos jogos

Cada participante-protagonista do Workshop “O que, Como e Porque Avaliar”, promovido pela AETEPE, teve oportunidade de compartilhar cases de sucesso das suas práticas docentes em suas instituições, enriquecendo assim a troca entre os profissionais e as instituições de ensino. Apesar do tema denso (avaliação), a tarde foi bastante lúdica, e foi brincando que os profissionais refletiram sobre o fato de que a Avaliação na educação, demanda a paciência necessária de quem avalia.

Ao falarmos sobre a responsabilidade de quem avalia, os instrumentos de aprendizagem utilizados durante o workshop foram bolas. Chamamos a atenção para as situações de sala de aula, em que, muitas vezes, parece mais simples transferir problemas aos outros, sem que se assuma a sua plena responsabilidade como educador – que não se resume apenas a entregar um conteúdo e atribuir nota.

Refletimos sobre o fato de que, em muitas situações, o papel de “bonzinho” parece mais confortável ao Professor, quando se priva de se posicionar em sala sobre questões da rotina escolar ou acadêmica onde poderia contribuir no processo de educação, e prefere remeter a problemática de imediato a alguma instância superior da instituição.

E o que dizer quanto ao “alvo” do Docente enquanto formador de profissionais que atuarão na área da saúde? Dá-se mais valor no processo de aprendizagem à “avaliação” ou ao aluno? Para refletir sobre esta temática, os elementos pedagógicos que utilizamos no encontro foram dois baldes e algumas bolas, para a realização de jogos que estimulassem a reflexão sobre a importância do professor manter o seu foco no “alvo” do seu trabalho enquanto educador – a saber, o aluno.

A relação professor/aluno é tão importante no processo de aprendizagem, que segundo um levantamento da UFABC (Universidade Federal do ABC) 11% dos alunos que trancaram suas matrículas, o fizeram por problemas psicológicos ligados a depressão. Uma questão importante é que a pressão e a falta de compreensão exercida pelos professores no ambiente acadêmico, foi uma das principais queixas: “Alguns profissionais parecem ter orgulho de pressionar e reprovar” – relatou uma das alunas, segundo artigo que trata dos transtornos psicológicos em jovens estudantes (Portal Bonde). Este é um dado que cito aqui para lhe dar a dimensão do alcance das consequências decorrentes da relação de “autoridade”, quando não saudável, que o professor pode exercer sobre o aluno.

No entanto, não foi este o caso da estudante Adriana, cuja problemática se deu a partir de um fator externo ao ambiente escolar (morte do filho), mas que acabou por conduzi-la a uma decisão que poderia colocar em risco a vida de outras pessoas, caso não fosse detectado e tratado já no ambiente acadêmico.

 

O caráter Diagnóstico da Avaliação no caso da Adriana

Ao ouvir o relato exausto da professora, a direção da instituição resolveu reunir os demais professores da Adriana para entender mais sobre o contexto e fechar um parecer a respeito da aluna. Os relatos dos demais docentes confirmaram a versão apresentada pela professora, e desconfiada de que haveria alguma coisa por trás do comportamento mal humorado da aluna, a direção da instituição de ensino resolveu realizar um trabalho específico com Adriana e os colegas de sala, com o objetivo de se entender  um pouco mais aquela turma, e consequentemente entender mais sobre a Adriana como estudante e integrante da classe.

Uma das coisas aprendidas e discutidas no workshop que realizamos, foi o caráter “diagnóstico” da Avaliação, pois ela é um meio, e não um fim em si mesma. Desse modo a avaliação é realizada, portanto, com o objetivo de se fazer um diagnóstico sobre a aprendizagem, não sendo ela (a avaliação) uma forma de manifestar autoridade, ou mesmo de punição ao avaliado. A Avaliação não compreende apenas o “exame”, também conhecido como “prova”, que é apenas um dos instrumentos utilizados nesse processo.

No caso da Adriana, a instituição insistiu na perspectiva do diagnóstico, e articulou com a Psicóloga um trabalho de grupo com os alunos da turma em questão, com o objetivo de estimular a fala e mexer um pouco com o emocional da turma, dando espaço para que expressassem seus sentimentos.

Ao tomar uma decisão com o objetivo de entender mais sobre a Adriana, a direção da instituição de ensino estava, de algum modo, lançando mão de três aspectos apresentados por Cipriano Luckesi, que aponta ter o processo de avaliação na escola os seguinte aspectos:

  • Não pontual: importa mais todo o processo de aprendizagem, não unicamente o exame/prova em si;
  • Dinâmica: seu aspecto não é estático, é dinâmico. Não ‘classifica’, e sim ‘diagnostica’;
  • Inclusiva: dá suporte e traz o aluno para o aprendizado.

Bem, o trabalho da psicóloga com a Adriana e seus colegas de turma foi a fórmula perfeita.

Em um dos momentos do trabalho em grupo, Adriana, em lágrimas, fez um relato desconhecido de todos até então sobre a perda do seu filho na emergência de um hospital, e destacou como o seu desejo de vingança a levou até o curso de enfermagem, para atuar na ‘área responsável’ (por assim dizer) por tirar dela seu bem mais precioso.

E assim ter a oportunidade de vingar a perda irreparável do seu filho.

 

“Eventos Adversos” – Questão de saúde pública

Assim como no caso do filho da Adriana, as falhas que ocorrem nos sistemas de saúde ao redor do mundo, também chamadas de “eventos adversos”, vão desde erro de dosagem ou aplicação de medicamentos, uso incorreto de equipamentos, infecção hospitalar, dentre outras práticas.

Segundo a Revista Veja, existem no mundo cerca de 421 milhões de internações por ano nos hospitais. Desse total, cerca de 42,7 milhões desses atendimentos se convertem em “eventos adversos” com algum tipo de consequência para o usuário do sistema de saúde. Um verdadeiro problema de saúde, reconhecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que também já apontou ser mais arriscado ir a um hospital do que viajar de avião.

Nos Estados Unidos, país com população de quase 325 milhões de pessoas, são registrados cerca de 400 mil óbitos por ano provocados por “eventos adversos”, sendo a terceira principal causa de mortes no país, depois de doenças cardiovasculares e câncer.

Com mais de 200 milhões de habitantes, o Brasil não está muito distante desta estatística. O mesmo estudo divulgado pela Veja, aponta uma projeção de 104 mil óbitos por ano, mas esta é apenas uma estimativa, pois ainda não é possível um levantamento de 100% da rede hospitalar do país, por não se cumprir padrões internacionais de parametrização, e por não haver transparência nesses dados, conforme sinalizou Renato Couto, um dos responsáveis por este estudo da UFMG, segundo a Veja.

 

Como os alunos e as pessoas em geral reagiram ao relato da Adriana

Passado o trabalho em grupo conduzido pela psicóloga, em que Adriana expôs todo o seu drama envolvendo a perda do seu filho, ela foi acolhida e ajudada tanto pela profissional que estava a frente, quanto pelos colegas de sala, posteriormente, que a inseriram nos grupos de estudo e demais ações da sala, vindo a integrar-se.

 

O que aconteceu à Adriana

As informações que se tem sobre Adriana dão conta de que, em razão do trabalho realizado, ela superou a idéia de atuar em enfermagem como forma de vingar a perda do seu filho, graças a sensibilidade de profissionais que insistiram em resgatar na aluna o que de melhor ela tem como pessoa, de modo que pudesse colocar isso a serviço da sua profissão como Técnica em Enfermagem, sendo assim um instrumento de promoção à vida.

Recebimento de certificado (da esquerda para a direita: Swnahanamy Santos, Semaías Rosa e Maria do Carmo).

 

 

“A avaliação é reflexão transformada em ação, não podendo ser estática

nem ter caráter apenas classificatório.”

(Jussara Hoffmann)

 

 

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